Jornal O Hoje. Publicado em 20.01.2013


O HOJE GOIÂNIA, DOMINGO, 20 DE JANEIRO DE 2013

 

Mulheres se estacam na construção civil

 

Posto historicamente ocupado por homens, o canteiro de obras passa a ser território de mulheres, que provam competência e ocupam espaço

 

 

 

Dedicação, cuidado e competência. Essas são algumas das qualidades que têm feito com que as mulheres conquistem, cada vez mais, espaço na construção civil no Brasil. Entre os

anos de 2007 e 2009, houve aumento de 44,5% na contratação de profissionais do sexo

feminino para atuar no ramo, ocupado historicamente pelos homens. O número, na época,

passou de 119.538 para 172.734, que representava 7,78% do total. Os dados são do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

 

A Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do TEM revela que a quantidade de mulheres trabalhando na construção civil aumentou 65% na última década. No ano 2000 eram 83 mil dentre o número de empregados, sendo que 10 anos depois elas já ocupavam 11% das vagas criadas pelo segmento em território brasileiro. Isso sem contar com a participação das mulheres em serviços informais, especialmente nos que são voltados para acabamento em obras. Em Goiás, a realidade não é diferente do que se vêem boa parte do país: de sexo frágil elas não têm nada.

 

 

Conquista real

 

 

Em Aparecida de Goiânia um conglomerado diferente vem chamando a atenção da sociedade. Isso porque 24 mães, filhas, esposas, e trabalhadoras da construção civil estão mudando o cenário do canteiro de obras da Fábrica de Casas, no Residencial Real Conquista. Boa parte dessas mulheres deixou para trás o antigo emprego para encarar o desafio de desempenhar um papel que, numa maioria antes esmagadora, era executado por homens. E não há distinção de funções por serem mulher: os serviços vão desde copeira a servente de pedreira.

 

O administrador da obra, Rogério Capel, conta que há apenas 20 mulheres na Fábrica de Casas construindo a estrutura dos imóveis, que são montados em seguida. Duas são responsáveis pela limpeza da obra, uma fica na copa,outra é vigilante durante o dia e, por fim, uma é técnica de segurança do trabalho. “Só na Fábrica de Casas ela representam a metade dos funcionários, sendo que 28 são homens”, observa.

 

 

 

Rotina vai de mãe à operária de obra

 

 

Administrar o tempo de trabalho com a hora de cuidar da casa e da família também faz parte da rotina de Elisângela Borges, 40. No sol escaldante, ela coloca areia dentro de um carrinho de mão, com uma enxada numa quantidade de vezes que fica até impossível de contar.

 

Mãe de seis filhos e esposa de um servente de pedreiro da obra, a família encontra ali, no dia a dia da construção civil, o sustento. Para ela, que anos atua na profissão, nada mais dói. “De frágil não temos nada”, confirma.

 

A rotina dela, como a de todas as mulheres da Fábrica de Casas, começa logo cedo, por volta das cinco da manhã. “Levanto, faço o café, deixo o almoço pronto e vou trabalhar.

Mas quando as crianças voltarem a estudar daí vou ter que arrumar eles para o colégio.

De noite, quando eu e meu marido chegamos, eu vou fazer a janta e ele vai limpar a casa. Depois vou lavar a roupa”, conta.

 

Elisângela era diarista, mas muda até a feição para dizer que não gostava, não. “Nunca gostei de ficar limpando a casa dos outros, eu gosto é de serviço pesado”, diz,aos risos.

Como se não bastasse a luta diária das mulheres, a maioria faz questão de ressaltar o quanto gosta do que faz.“Eu amo o que faço”, afirma Simone Lemes da Silva, 39. Colega de Elisângela,ela sente orgulho de estar onde está,vivendo como queria: sendo uma mulher independente.

 

Apesar de também ser casada com um servente de pedreiro da mesma obra, ela frisa que o marido não gosta que ela fique ali, exposta a tanto esforço físico. Nem mesmo os filhos, já adultos, aprovam a atividade profissional da mãe. “Eles ficam preocupados porque

é pesado, mas sentem orgulho de mim”, conta, satisfeita. Sem se importar com a desaprovação dos familiares, Simone batalha todos os dias e sabe que é uma guerreira.

“Não é fácil cuidar da casa e auxiliar na educação dos filhos”, pontua.

 

Essa a primeira profissão dela e, mesmo sem saber como são as outras profissões fora do canteiro de obras, ela nem hesita em dizer: “eu tinha a opção de ficar em casa, sendo do lar, mas quis ser independente, ganhar meu próprio dinheiro para ajudar nas despesas, por isso não trocaria isso aqui por nenhum outro serviço, pois como eudisse, amo o que faço”.

 

 

“Em alguns casos é melhor trabalhar com elas”

 

 

 

Ele conta que não há distinção de valores ou de gênero entre os trabalhadores, mas afirma que “em alguns casos é até melhor trabalhar com elas, justamente pelo capricho e

dedicação que têm”. No começo das obras, há cerca de seis anos, muitos se perguntavam se as colegas dariam conta do recado, segundo Rogério.

 

“A princípio eu achei que não daria certo, mas depois elas surpreenderam a todos”, garante. Uma das mulheres que mostraram que o quanto o“sexo frágil” é capaz foi Liliam Rose Pereira, 31. Na construção desde o início, ela conta que largou o trabalho como cabeleireira e manicure pelo de servente de pedreira. O contraste de uma tarefa para outra, diz ela, foi bastante grande. No entanto, a oferta de trabalho aliada a boa proposta salarial fez com que a também dona de casa optasse pela construção civil.

 

Liliam é moradora do Residencial Real Conquista. Ela ganhou a casa através da Agência Goiana de Habitação de Goiás (Agehab), órgão responsável pela construção das casas. Desde então sua vida melhorou. “Antes eu trabalhava no Centro de Goiânia, então seria inviável continuar lá, é muito longe, e não podia ficar sem ganhar dinheiro”. Ela é casada e mãe de cinco filhos, sendo que o mais velho tem 13 anos e o mais novo apenas1.

 

Pá, carrinho de mão e batom

 

Totalmente favorável à contratação de mulheres para atuar na construção civil, o engenheiro responsável pelos canteiros de obras da Agehab em Goiânia, Himerson

Pereira Farias, garante que, com as mulheres,produtividade é até 25% maior.

 

O diferencial delas, segundo o profissional, é que são mais cuidadosas, dedicadas e extremamente competentes no que fazem. Além disso, elas evitam o desperdício de tempo e material.

 

O engenheiro salienta,ainda, que a produção de uma mulher é tão boa quanto a de

um homem e que, apesar de mais limitadas fisicamente, elas compensam com mais foco no trabalho. “O homem já está acostumado, mas como a mulher quer se inserir nesse mercado de trabalho, acaba por ser mais focada”, reforça.

 

Para ele, é preferível que as funcionárias se engajem, especialmente, em serviços de acabamento, como assento de pisos e reboco. “Elas são eficientes em trabalhos de alvenaria, mas também fazem carregamento de massa, entulhos e qualquer outra coisa

feita por um homem”, acentua.

 

 

Com elas, produtividade

ficou até 25% maior

Totalmente favorável à contratação de mulheres para atuar na construção civil, o engenheiro responsável pelos canteiros de obras da Agehab em Goiânia, Himerson Pereira Farias, garante que, com as mulheres, produtividade é até 25% maior. O diferencial delas, segundo o profissional, é que são mais cuidadosas, dedicadas

e extremamentecompetentes no que fazem. Além disso, elas evitam o desperdício de tempo e material.

O engenheiro salienta, ainda, que a produção de uma mulher é tão boa quanto a de um homem e que, apesar de mais limitadas fisicamente, elas compensam com mais foco no trabalho. “O homem já está acostumado,mas como a mulher quer se inserir nesse mercado de trabalho, acaba por ser mais focada”, reforça.

Para ele, é preferível que as funcionárias se engajem, especialmente,em serviços de acabamento, como assento de pisos e reboco. “Elas são eficientes em trabalhos de alvenaria, mas também fazem carregamento de massa, entulhos e qualquer

outra coisa feita por um homem”, acentua.

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